domingo, 3 de dezembro de 2023
Vida que vai e vem ...
Palavras velhas
A grande derrota de nosso tempo e que está abrindo o mundo para a extrema-direita será a perda da esperança nas palavras? É que até pouco tempo atrás, acreditamos que um bom discurso humanista e a conscientização da maioria poderia melhorar a sociedade. Mas há fortes indícios de que isso não acontece, pois o poder concentrado e contrário a uma vida mais humana consegue vencer as boas palavras. Então, a parte mais agressiva da sociedade, que se liga fragilmente aos discursos da justiça social, afasta-se e passa a querer um mundo selvagem, em que só os mais fortes vencem. Estamos nesse ponto. Que a ciência nos ajude a formatar novas abordagens para estancar a derrota do humano.
Sim, política
A política é para unir as pessoas. Calma, não para reduzi-las a um só pensamento, mas para tornar tolerável as diferenças em relação à vida social e permitir intensa e amorosa e divertida convivência em outros campos. Porque a política está em tudo, mas não é tudo. No entanto, totalitários de todos os naipes forçam nas pessoas a ideia de que não há mais nada na vida, além da política, quando na verdade há muito, muito mais. Enfim a política é linda e pode aproximar as pessoas em muitos aspectos da existência, mas desde que não reduza a vida humana a ela.
domingo, 8 de outubro de 2023
O medo da morte é o medo do novo
O medo da morte é o medo do novo, do desconhecido, não da morte mesma, pois dela não se sabe nada, a possibilidade de haver dor no processo, por exemplo, não é ela ainda. Ela é o que absolutamente não se sabe. E é isso que possivelmente traz um temor muito forte. (O amor novo traz medo). Em priscas eras, o novo era basicamente a chegada mortífera do predador, e esse medo primevo pode estar impresso em nós de algum modo. Mas se for assim mesmo, um meio de diminuir essa angústia será fazer coisas novas e alegres, e gostosas, e não doloridas, para ressignificar o novo como algo bom (será que os reacionários, que não aceitam o novo, temem muito a morte?). Então talvez seja por isso que viajar seja tão bom, que tomar susto de brincadeira cause um estranho alívio. E se tudo isso for verdade, fazer de vez em quando algo bem diferente pode diminuir o medo da morte; por exemplo, ir rastejando da sala para a cozinha, fazer caretas exageradas no espelho, levantar as mãos de repente enquanto andamos na rua (ninguém liga tanto), ouvir música de vanguarda. E assim, quem sabe, esse medo chato diminuirá. O medo da morte, do novo (do desconhecido).
terça-feira, 3 de outubro de 2023
O lado "bonitinho" do fascismo.
Tem uma parte do fascismo que não é notada, nem comentada, e é importante por parecer bonitinha. Em filmes da época do fascismo italiano ela é muito presente. Trata-se de uma convivência muito gostosa e divertida entre pessoas ricas e o povo pobre. Tudo é muito bom, harmonioso e passa uma ideia de que não há nada errado na forte desigualdade. A Sophia Loren fazia muito esse papel de uma pessoa pobre e bela (em filmes de entretenimento), que se relacionava de igual para igual, agradavelmente, com os mais ricos, e vice-versa. Essas imagens são fundamentais para passar a ideia de que a violência se justifica se alguém atentar contra esse paraíso absoluto formado pela classe alta e a classe baixa irmanadas, felizes e perfeitamente separadas.
Realização, felicidade e alienação
Eu sempre digo, a realização pessoal pode ser pequena, pequena e justa. E não tem nada a ver com superar os outros. É por isso que há médicos infelizes e operários felizes. A realização pessoal diz respeito a utilizar bastante nossas principais competências no sentido de sermos úteis e benéficos a nós mesmos e à coletividade. E é uma das bases principais da felicidade. Mas ensina-se intensa e constantemente que só nos sentiremos realizados (e felizes) se vencermos muitos outros. Artistas e esportistas são muito importantes, mas a sociedade os usa para difundir que só os que se destacam é que têm valor.
Como interromper essa insanidade?
Ah, faltou falar. Realização até pode acontecer com baixa remuneração. Felicidade também. Mas é melhor com justiça.
segunda-feira, 5 de junho de 2023
Câmara popular
Eu tenho uma ideiazinha que talvez faça sentido. No plano federal, há os senadores , que representam os seus estados. Então os deputados federais ficam meio que sobrando. Eu os trocaria por um sistema de câmaras populares com capilaridade, formadas por pessoas comuns, que receberiam por esse trabalho o que recebem em suas profissões originais. Digamos, por uma semana (depois disso, outros seriam convocados, como na convocação de mesários para as eleições). Essas câmaras seriam muito próximas da população, talvez umas duas por bairro. E todo final de ano, cada uma enviaria um ou dois representantes para uma grande reunião em Brasília, onde seriam firmados os interesses mais prementes de nossa população. Algo assim.
segunda-feira, 15 de maio de 2023
Professor
Professor tem posicionamento. É normal. Claro que isso não significa que ele deve ficar incutindo na cabeça do estudante suas ideias. E isso por uma razão fundamental: a gente tem o objetivo de desenvolver a capacidade dele de conceber suas próprias ideias, então não faz sentido ficar repetindo o que pensamos. Sim , necessariamente esse desenvolvimento inclui conhecer as posições do professor em diversos assuntos, mas sem imposição ou insistência de nenhuma espécie. O bom professor é muito cuidadoso com a formacão do aluno.
quinta-feira, 6 de abril de 2023
Um teto para a herança
Os mais ricos fazem parte da sociedade. Sem ela, não existiriam. Por isso a comunidade pode estabelecer parâmetros para a existência dessas acumulações, pensando no que é melhor para todos, no sentido de evitar que elas sejam prejudiciais para o conjunto. Sabe-se que uma pessoa muito rica pode auxiliar no desenvolvimento de coisas boas para todos, mas também pode, a partir de uma magnitude, distorcer a sociedade conforme seus interesses. Assim, creio que um dos parâmetros será um dia taxar fortemente as heranças e até estabelecer um máximo, por exemplo, uns 350 milhões. Mas isso será lá no futuro (se houver).
Dupla natureza do homem
É preciso ter a pertinência de distinguir a extrema-direita da direita, mas também ter a coragem de distinguir a extrema-esquerda da esquerda. A e-d quer que só haja o indivíduo: se quiser matar, mata; se quiser não vacinar, não vacina; se quiser passar o farol vermelho, tudo bem. A e-e quer que o homem seja somente social, como uma formiga, que atua somente para o grupo, nunca para si. Essas duas posições extremas não suportam a mistura indivíduo-sociedade, que é a verdadeira (dupla) natureza humana. Pense nos melhores times da história do futebol. Eles manifestaram nossa dupla natureza.
domingo, 2 de abril de 2023
Linguagem verbal, maldade e educação
Penso que a maldade não existe sem a linguagem verbal; nem a ética. A maldade precisa da linguagem verbal para ser concebida, e a ética só tem razão de ser se a maldade pode ser concebida. É por isso que a educação é absolutamente essencial para a condição humana: ela tem a função de nos ensinar a domar a linguagem verbal para não concebermos a maldade. Pode notar, não há um folclore ou uma cultura no mundo todo que esteja a serviço da valorização da maldade. Por exemplo, não há em lugar nenhum uma música que fale de como é divertido matar. A linguagem verbal exige a educação.
quarta-feira, 22 de março de 2023
Mais eu
Quando uma força política cresce no mundo todo, é porque o que ela representa está ameaçado. O que a extrema-direita representa, de forma perigosa e inaceitável, é o poder individual absoluto. Mas o que ameaça hoje o espaço do indivíduo não é o comunismo, e sim o capitalismo, com a velocidade incessante no trabalho e a colonização das mentes no mundo virtual, não deixando tempo nem disposição para reflexão ou se estar consigo mesmo para viver profundamente o próprio ser. Talvez por isso os corpos estejam ficando tão tatuados, uma possível tentativa inconsciente de tornar a pessoa física mais existente. E então a extrema direita surge como uma "esperança" caricata e desesperada de recuperação da presença do indivíduo. O caminho de salvação contra a ascensão do fascismo é, portanto, mais folga, mais contato demorado com o mundo verdadeiro. Menos capitalismo.
terça-feira, 24 de janeiro de 2023
O homem sem educação é impossível
O ser humano precisa ser muito bem educado desde o início por causa de nossa linguagem sofisticada, a qual permite que alguém modifique profundamente a percepção da realidade. Por exemplo, com a linguagem, uma pessoa pode construir a ideia de que um tipo de gente não é gente e portanto pode ser exterminado, friamente, como matamos baratas. A linguagem exige, portanto, que tenhamos uma educação complexa e científica para evitarmos essas monstruosidades.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2023
O mal em mim e em você
Agora está na moda firmar que algumas pessoas são más desde o nascimento e incuráveis (psicopatas, sociopatas, narcisistas etc). E essa crença foi alimentada por psiquiatras famosos. Ora, só melhoramos na vida se percebemos e corrigimos mazelas em nós. Colocar todo o mal em alguns outros, como se fossem de outra espécie, nos aliena de nós mesmos, impedindo nossa contínua humanização. Qual será o próximo passo desses "cientistas"? Identificar já no berçário os maldosos irrecuperáveis e isolá-los desde então do convívio social? Ah, como é difícil encarar nossos próprios males!
quarta-feira, 18 de janeiro de 2023
Indivídual e social
Você pode ser de direita, não tem problema nenhum. A pessoa de direita valoriza muito o poder pessoal. E você pode ser de esquerda (eu sou), sem problemas também. A pessoa de esquerda valoriza muito o poder social. Ora, qualquer reflexão ligeira nos leva à percepção de que esses dois poderes importam igualmente à vida humana. O que não cabe é reduzir a dinâmica humana a apenas um deles, incluindo a busca da eliminação física de quem se opõe a essa redução. Precisamos, tanto da potência criativa dos indivíduos quanto das ações sociais que trabalham no sentido da justiça social. O fato é que pelo menos há cem anos misturamos produtivamente mercado (que se baseia na ação individual competitiva) e práticas socialistas (o que todos fazem para cada um - férias, saúde pública, aposentadoria, educação pública, renda básica etc). A Guerra Fria trabalhou no sentido de impor a exclusividade, ou do poder individual (mundo capitalista) ou do poder social (mundo socialista), o que muito nos atrasou, pois precisamos obviamente dessa mistura. A quantidade exata de cada uma dessas partes não sabemos, daí a necessidade fundamental da política.
Será que isso faz sentido?