terça-feira, 21 de junho de 2016

Vida verdadeira


A política que estamos sofrendo nesse exato momento tem como principal objetivo destruir, em cada um de nós, a vontade genuína de ser.  Mas eu sou teimoso. Vou continuar sonhando por toda a minha vida. Insensatamente. Apaixonadamente. E tenho certeza de que, mais à frente, o Brasil será um belo lugar para se estar.

domingo, 31 de janeiro de 2016

O fim da relação senhor-escravo



Vou assustar, de início.

O problema principal  da humanidade é a gigantesca memória afetiva dos benefícios produzidos pela relação senhor-escravo.  Isso mesmo, a civilização que conhecemos precisou desse esquema para chegar até aqui.  Muitas pessoas trabalharam muito e desumanamente para que outros poucos pudessem desenvolver o pensamento e a tecnologia.

Se Aristóteles tivesse que capinar e caçar todos os dias para sobreviver, não teria feito a obra que fez. 

Claro que essa civilização precisa ser criticada e transformada, e que há outros formatos de civilização, por exemplo, dos silvícolas brasileiros, que embora não tenham prevalecido, não foram, felizmente, totalmente extintos, pois serão imprescindíveis para a mudança que virá.

Porém, hoje, mesmo já havendo, por força do desenvolvimento alcançado, a possibilidade de superar a polarização senhor-escravo (escravo, servo, operário – na sequência histórica), não conseguimos ultrapassá-la.  Porque a memória afetiva é mesmo muito presente.  Quando vamos a um restaurante, vamos apenas em busca de comida? Não, vamos em busca também da representação da relação senhor-escravo.  Há escravos para servir, para cozinhar, e nós ficamos ali como senhores (senhores, nobres, patrões – na sequência histórica).  Exigimos qualidade, presteza, cortesia e quase sempre sentimos ali uma surpreendente harmonia.

Por isso, para superar esse dualismo, precisaremos de uma nova política baseada na psicologia, na psicoterapia - que provisoriamente eu chamo de “psicoterapia do lado público do homem” -, capaz de desarmar essa memória afetiva e abrir caminho para uma nova sociedade mais igualitária. Mas essa técnica ainda não existe, precisa ser criada.

É isso. Espero que minha interpretação possa ter transformado o susto inicial em complexa esperança. 




terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Cem poemas bonitos do Brasil





46 - Ternura
                                         Vinicius de Moraes

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma...
É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.



segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Profissão


Escolher uma profissão não é escolher o que se ama fazer.  Eu amo tomar sorvete. Não, escolher uma profissão é escolher o modo como poderemos ser mais úteis à nossa comunidade. Isso, sim, gera um prazer imenso e que atende pelo nome de satisfação profissional.

Ora, somos mais úteis onde somos mais hábeis. Por isso, se estiver escolhendo sua profissão, primeiramente levante quais são suas habilidades e competências mais destacadas (No que você é bom?): paciência; habilidade com pessoas, coisas ou informações; percepção visual, sonora ou cinestésica;  capacidade de ouvir; liderança; habilidade em comunicação pública; facilidade  em interpretar textos; organização; preocupação com detalhes; facilidade com números; detenção de conhecimentos específicos ou gerais; raciocínio rápido; fazer várias coisas ao mesmo tempo, tolerância a rotinas pesadas; criatividade, etc.  Você pode aumentar essa lista o quanto quiser.

Em seguida, selecione as profissões que lhe são atraentes e descubra qual delas envolve o maior número de suas maiores habilidades e competências, pois quanto maior for esse número, mais você poderá se diferenciar positivamente, ou seja, ser mais útil e conseguir sucesso profissional por isso. E só assim você poderá, um belo dia, sentir até mesmo que ama o que faz.  


domingo, 30 de agosto de 2015

Brasil



Não vai ter golpe. Não vai ter golpe. Não vai ter golpe. 
Sabe o que isso significa? 
Significa que teremos que criar vergonha na cara e arrumar pra valer a escola pública. Para que a vida de todos seja possível, nutritiva e linda.  Não se assuste. A vida é morena. 
Caia por cima de mim, morena!



domingo, 26 de abril de 2015

Cem poemas bonitos do Brasil




45-  O que é - simpatia
                                              Casimiro de Abreu

(A uma menina)


Simpatia - é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atração.


Simpatia - são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.


São duas almas bem gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais.


Simpatia - meu anjinho,
É o canto do passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu d'Agôsto,
É o que m'inspira teu rosto...
Simpatia - é  quase amor!



terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Alimento gratuito

                                                                                                         
                                                                                 
É estranho.  Pensamos que um homem digno seja aquele que trabalha pela sua sobrevivência, pelo seu alimento, mas isso é próprio do animal.  E que se ele tiver alimento e outras condições básicas garantidas, tornar-se-á um parasita, não quererá ir além  disso e perderá a noção de ética.

É estranho porque admite-se que somos seres muito complexos, inegavelmente capazes de muitas sofisticações inacessíveis aos outros seres vivos, inclusive, e principalmente, para além da sobrevivência.  Então, é contraditório definir a luta pela sobrevivência – própria dos animais – como elemento definidor da condição humana.  E que sem ela cairíamos em prostração.

Pensando bem, isso não vale nem mesmo para animais. Pets não lutam pela sobrevivência e costumam ser adoráveis.

Podemos sim ter, para todos, a base da sobrevivência garantida e continuarmos interessados em criar novas soluções e outras sofisticações.  Eu iria além.  Essas garantias aumentariam em nós a ânsia pelo específico humano.

O contra-argumento irá certamente pela citação da possibilidade, já testemunhada por muitos, de pessoas que tiveram uma vida fácil (garantida) e se acomodaram, ou de famílias muito pobres que após receberem ajuda financeira sistemática, não se interessaram mais em trabalhar.  Mas uma análise um pouco mais acurada desses casos quase sempre revela confusões, nessas famílias, entre afeto e bens materiais, e outros discursos duplos, neuróticos.  Ou seja, a causa da desintegração seria outra que não a segurança para a sobrevivência.

Enfim, por essa ótica, talvez seja possível inferir que o medo em relação a sistemas como o Bolsa-Família seja na verdade o medo de que os muito pobres se humanizem e deixem de, aos olhos dos mais ricos, parecerem meros animais.



sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Cem poemas bonitos do Brasil



44- Noite carioca

                                                            Murilo Mendes



Noite da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro
tão gostosa
que os estadistas europeus lamentam ter conhecido tão tarde.
Casais grudados nos portões de jasmineiros...
A baía de Guanabara, diferente das outras baías, é camarada,
recebe na sala de visita todos os navios do mundo
e não fecha a cara.
Tudo perde o equilíbrio nesta noite,
as estrelas não são mais constelações célebres,
são lamparinas com ares domingueiros,
as sonatas de Beethoven realejadas nos pianos dos bairros distintos
não são mais obras importantes do gênio imortal,
são valsas arrebentadas...
Perfume vira cheiro,
as mulatas de brutas ancas dançam o maxixe nos criouléus suarentos
 
O Pão de Açúcar é um cão de fila todo especial
que nunca se lembra de latir pros inimigos que transpõem a barra
e às 10 horas apaga os olhos pra dormir.



sábado, 25 de outubro de 2014

Reflexão


Duas moças

            (9/10/2014)  

            Hoje observei no supermercado duas moças muito tranquilas e sorridentes, muito provavelmente de poucos recursos econômicos. Mas chamou-me a atenção que suas vestimentas, embora simples, tinham uma boa qualidade. Além disso, conversavam animada e descontraidamente sobre filmes a que assistiram recentemente e outros assuntos. Mas o que realmente me fez prestar atenção nelas foi a sua postura segura, de cabeça levantada, embora sem arrogância. Elas manifestavam poder social.

           Então lembrei-me de como era comum no Brasil vermos pessoas "humildes" nesses mesmos supermercados, trajando roupas precárias, com uma postura medrosa em relação aos frequentadores com melhor condição econômica, sempre baixando os olhos e com os ombros encolhidos. E pensei: será que não é esse o principal fator, e não tanto a preocupação com a corrupção, que está levando alguns a votarem em Aécio Neves? Ver essas pessoas felizes, seguras, empoderadas socialmente talvez os esteja chocando ou incomodando inconscientemente.


           Se for isso mesmo, é muito triste. Por que não é bonito para todos que aquelas simpáticas moças possam se sentir bem e contentes dentro da sociedade que, obviamente, também é delas?

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Cem poemas bonitos do Brasil



43 - Pronominais
 
                                Oswald de Andrade
 
 
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.
 

domingo, 25 de maio de 2014

Frases minhas do Face - 5




Vou torcer pelo Brasil, vou torcer pela nossa maneira linda de jogar, que integra tão sofisticadamente a ação criativa individual à dinâmica do grupo. Uma bela representação da democracia.



Dinheiro não é tudo, e amor é quase tudo.


Não devemos desconsiderar a incrível tarefa histórica que a USP cumpriu no Brasil com louvor. Formou mais da metade dos melhores pesquisadores que temos, o que alavancou a qualidade de inúmeras instituições superiores do Brasil inteiro, já que todos os formados não cabem obviamente na USP. Creio que o caminho não seja desmoralizá-la, mas perceber que ela agora precisa avançar para uma etapa mais sofisticada, que é produzir conhecimento do mesmo nível e quantidade das melhores universidades do mundo. Cabe, portanto, a partir daqui, construir uma base mais potente do que a que já existe para o financiamento desse sonho que é fazer da USP um grande centro internacional de produção de conhecimento e, vale dizer, de riqueza. Ao Nobel, companheiros!


Vivamos respeitando os direitos dos outros. Um belo primeiro passo para uma vida melhor.


O Brasil precisa valorizar os inovadores, pois são eles que constroem a riqueza. É fácil reconhecê-los: geralmente apresentam olhos arregalados, cabelo despenteado e vivem falando, entusiasmados, "Tive uma ideia!"


O Brasil jamais escapará do fato de ter sido maduro por um pequeno período de sua história. Refiro-me ao período que engloba o governo de FHC e o de Lula. Pela primeira vez na nossa história, uma corrente política aceitou e complementou a contribuição da outra. FHC estabilizou a economia, e Lula teve a sabedoria de não mexer nessa conquista e acrescentar uma inédita política de justiça social. Não adianta espernear, Brasil, você cresceu!




Será que não está chegando a hora de a psicologia contribuir mais efetivamente para a solução de problemas sociais? Não haverá uma espécie de cartesianismo inconsciente que reserva o que é social para as ciências sociais, a política, a filosofia e afins, e a psicologia fica para o mundo privado?



É preciso esvaziar as cadeias deixando lá somente quem causa sofrimento direto ou rouba dinheiro público. Os outros criminosos, que cumpram trabalho comunitário.



Impressiona-me, nesses debates sobre Cingapura, que quase ninguém, ou ninguém, destaca uma ação pública inteligentíssima, humana e eficaz que acontece praticamente só lá: as premiações (p. ex. cheques no valor de 100 dólares) por comportamento respeitador das leis. Esta, que encontra suporte na mais importante contribuição do behaviorismo, qual seja, a comprovação de que o reforço positivo educa mais e com mais consistência do que a punição, parece não ser notada ou não interessar. Só se nota o que é "mais do mesmo", tentativa de controlar o ser humano à força. Só se nota o que é detestável, lá ou em qualquer outro lugar.


Enquanto o Brasil não souber o que fazer com seus negros e negros/mestiços, não haverá solução.




domingo, 16 de fevereiro de 2014

Futebol e liberdade





Brasileiros, pelo menos uma vez na vida, parem de dar ouro aos bandidos.  

Certo, a Copa está sendo feita com uso desmesurado do dinheiro público (inclua-se boa dose de corrupção), e desconsideração de nossas prioridades. 


Mas a Copa é também o lugar onde uma das maiores maravilhas produzidas pelo espírito humano costuma acontecer.  Falo da maneira brasileira de jogar futebol, absolutamente linda, mas muito mais que isso, uma manifestação claramente antifascista, antiautoritarismo, antiguerra e antiditadura de qualquer espécie, pois se caracteriza pela maneira mais plena e bela de liberdade individual (os dribles, os passes mágicos, a leveza, etc.), muito embora sempre a serviço do grupo.


Uma afirmação assim da melhor condição humana faz bem para toda a humanidade.


Portanto, a par da luta pelo bom uso do dinheiro público, temos que trabalhar para que a nossa seleção jogue a Copa com a genuína e humanista maneira brasileira de jogar futebol, muito diferente da burocrática e pragmática estratégia que visa resultados discretos e sua manutenção, o que só interessa para quem não gosta de gente, principalmente de gente livre.


Que nada!  Temos é que dar o nosso velho, fascinante e comovente espetáculo do equilíbrio entre indivíduo e grupo, mesmo que para isso nossos jogadores tenham que praticar a desobediência revolucionária!  


Ao ouro, companheiros!



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Amor romântico e humanidade



Quase sempre não nos damos conta da ideia perigosa que acaba por se manifestar no amor absoluto, romântico.  Quando dizemos “Você é tudo para mim”, estamos dizendo também que o restante da humanidade é nada.  O que é puro fascismo.  Cuidado!  Já sofremos demais com os Hitlers da história e do dia a dia.

Por outro lado, o amor romântico que celebra a humanidade na pessoa amada, esse tem valor, esse é um afeto bom. E acho que valeria a pena conversar sobre isso com as crianças e com os adolescentes.



sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Cem poemas bonitos do Brasil




42 - Aninha e suas pedras
                                                            
                                                     Cora Coralina  


Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.




sábado, 25 de janeiro de 2014

Cem poemas bonitos do Brasil




41 - Garoa do meu São Paulo

                                   Mário de Andrade


Garoa do meu São Paulo,
-Timbre triste de martírios-
Um negro vem vindo, é branco!
Só bem perto fica negro,
Passa e torna a ficar branco.

Meu São Paulo da garoa,
-Londres das neblinas finas-
Um pobre vem vindo, é rico!
Só bem perto fica pobre,
Passa e torna a ficar rico.

Garoa do meu São Paulo,
-Costureira de malditos-
Vem um rico, vem um branco,
São sempre brancos e ricos...

Garoa, sai dos meus olhos.