terça-feira, 4 de setembro de 2012

Cem poemas bonitos do Brasil



18 - Samba e amor
                                           Chico Buarque

Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã
Escuto a correria da cidade, que arde
E apressa o dia de amanhã
De madrugada a gente 'inda se ama
E a fábrica começa a buzinar
O trânsito contorna a nossa cama, reclama
Do nosso eterno espreguiçar
No colo da bem vinda companheira
No corpo do bendito violão
Eu faço samba e amor a noite inteira
Não tenho a quem prestar satisfação
Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito mais o que fazer
Escuto a correria da cidade. Que alarde!
Será que é tão difícil amanhecer?
Não sei se preguiçoso ou se covarde
Debaixo do meu cobertor de lã
Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O professor do pobre

                                                                       

Por que o professor do pobre não pode ter altivez?
Porque se for assim, o pobre aprenderá a ser altivo.

Por que o professor do pobre não pode ter dignidade? 
Porque se for assim, o pobre aprenderá a ser digno.

Por que o professor do pobre não pode ser endinheirado? 
Porque se for assim, o pobre aprenderá que é possível ganhar bastante dinheiro, trabalhando honestamente.

Por que o professor do pobre não pode ter bastante tempo para pensar e se preparar? 
Por que se for assim, o pobre aprenderá a pensar e será muito mais capaz.

Por que o professor do pobre não pode ser contente?
Porque se ele for contente, ensinará ao pobre que o trabalho não precisa ser massacrante.

Por que o professor do pobre não pode ter autonomia?  
Porque se for assim, o pobre aprenderá o valor da independência.

Mas por que o pobre não pode aprender todas essas coisas?  
Porque se isso acontecer, a sociedade será outra, muito melhor.

E por que isso não seria bom?  
Porque se a sociedade fosse outra, melhor, os dirigentes da sociedade também seriam outros.  Entendeu? 

Termino por aqui, mas com uma pergunta que pode incomodar:

Será que nós, profundamente, verdadeiramente, queremos mesmo essa outra sociedade melhor?  

Responder olhando para um espelho.

                                                                                    
                                                                                                     Humberto Cosentine
   

  


sábado, 21 de julho de 2012

Sobre o atirador de Aurora



Há uns quinze anos, escrevi uma série de textos ("Algumas idéias para um país interessante" - Ed. Baraúna) sobre a forte influência dos filmes de violência explícita nas pessoas mais desequilibradas, mas pouca gente levou essa hipótese a sério.    


19- PROGRAMAÇÃO INVOLUNTÁRIA PARA A VIOLÊNCIA

            Somos escravos do impulso de observar cenas de incêndios, enchentes, outras tragédias, violência entre seres humanos com tiros, facadas, torturas, etc, simplesmente porque o instinto de sobrevivência exige. O objetivo desse mecanismo é: evitar que também sejamos aniquilados pelas situações citadas. Instintivamente olhamos para um acidente grave automobilístico e não conseguimos deixar de olhar, mesmo quando racionalmente sabemos que as vítimas já foram socorridas e outras providências foram tomadas, porque o animal que há em nós, quer se certificar de que não há mais perigo para ele, que a situação já está terminada, ou seja, não pode progredir a ponto de envolver-nos também. O mesmo se aplica para nossa relação com cenas de violência na TV, no cinema e na vida real. Excetuando-se pessoas que conseguem estabelecer uma mediação racional bastante forte entre seus impulsos nesse campo e a concretização dos mesmos, a maioria das pessoas e principalmente aquelas que viveram em meio a muitas sensações de perigo (família desestruturada, ambiente violento, miséria, neurose, etc.), praticamente não conseguem deixar de olhar essas cenas. Trata-se de um fenômeno que chamarei de atenção instintiva.
            Ora, é fácil concluir que se se pretender fazer um filme com relativamente poucos recursos e que dê um bom público, ou com muitos recursos e garantia de bom público, a receita será colocar muitas cenas de violência (ou catástrofes) e violência a mais sangrenta possível e, ainda, de preferência contra ou entre seres humanos e em ambiente realista. A atenção instintiva assim gerada aumentará em muito a garantia de um bom público.
            É sabido que nossa mente pode ser programada, em muitos aspectos, como se fosse um computador. No caso do cérebro, para que ele aceite uma programação, é preciso: 1- que a pessoa a queira, 2- que a programação ocorra com base em exposição prolongada com muita repetição ou com exposição especial, envolvendo estados alterados de consciência.
            Pensemos na violência presente na TV e no cinema. Milhares de tiros, facadas e torturas várias numa freqüência crescente, são assistidos todos os dias pelos espectadores. Passados uns dez anos de exposição, e se pensarmos em crianças e adolescentes em fase de definição de personalidade, é muito possível que tenha ocorrido uma programação, embora informal, para a violência sangrenta, para a violência de aniquilação do outro. Porque as cenas de violência com tiros, facadas e torturas, quebras de pescoço, etc., ao serem absorvidas pelas pessoas nessa quantidade e freqüência, dia após dia, ficam gravadas profundamente, além disso, levam a uma habituação a esses atos, que deixam de ser raros em nossa consciência, surpreendentes, apavorantes, e enfim, passam a estar na ordem do dia. Aqui vai uma afirmação muito ousada pois ainda não totalmente demonstrada em laboratórios de Psicologia: a de que uma pessoa com tamanho repertório audiovisual de violência sangrenta, se for envolvida em uma situação de conflito com outras pessoas, apresenta muito mais probabilidade de, no momento de agir, substituir o impulso de socar pelo de atirar, substituir a idéia de chamar uma autoridade policial pela idéia de matar seu inimigo, trocar um empurrão do tipo “deixe-me em paz”, por pegar a cabeça do oponente e golpeá-la na quina de uma mesa. E se estiver dando uma “gravata” no oponente, por que não completar com aquela torção tão elegante que com freqüência é mostrada nos filmes, a qual vem sempre acompanhada de um “clic” de pescoço quebrado?
            Acredito que essa possibilidade aumenta muito mesmo e, se isso for verdade, é possível que os crimes sangrentos estejam ocorrendo em nossa sociedade numa quantidade muitíssimo maior do que ocorreriam caso nossa cultura não efetuasse a programação para a violência já descrita.
            Mas uma programação desse tipo só pode ocorrer se as pessoas participarem intensamente do processo, em suma, se elas quiserem. Isso quer dizer então que elas querem a violência sangrenta, uma vez que os filmes de violência dão boas audiências de TV e boas bilheterias de cinema?
            Como vimos no início, as pessoas não exatamente querem assistir mas são quase que obrigadas a isso por força dos instintos de sobrevivência e segurança (o fenômeno da atenção instintiva). Então essas cenas são muito atraentes, então essas cenas dão lucro, então elas ocorrem com freqüência cada vez maior nas telas, então nossas mentes ficam cada vez mais impregnadas de alta violência, então ocorre a programação para a violência, então um número aumentado de pessoas comete atos graves de violência física. Assim, fecha-se perfeitamente o esquema de programação neurolingüística involuntária para a alta violência.
            Acreditem, foi sem querer.



quarta-feira, 11 de julho de 2012

Frases minhas do Face -1






*  Não acredito em terrorismo do bem, a serviço de uma causa humanista. Quem planeja a morte de seres humanos, gosta de matar seres humanos.

 

*  A revolução brasileira será colocar a escola de pé, luxuosamente de pé. 



*  Acho que a gente começa a ficar bem na vida quando sente uma gostosura danada só de levar a gente mesma para tomar um lanche... 



*  Quando o brasileiro tomar o Brasil para si, teremos por aqui muitas coisas legais como, por exemplo, linhas de trens que passarão por todas as regiões e belezas do país, com vagões para refeitórios, amplos dormitórios, áreas de convivência... ; tudo muito confortável e acessível a todos, para que, pelo menos uma vez na vida, qualquer um de nós possa conhecer inteiramente o seu próprio país.    Mas para isso, brasileiro, você precisa tomar o Brasil para si. 



*  A vida é esta.



terça-feira, 10 de julho de 2012

Amor público



                                                                       

Para termos um mundo verdadeiramente humano, precisamos desenvolver o que chamo de amor público.No dia em que nós pegarmos um regadorzinho e formos até a praça pública mais próxima a fim de nutrir carinhosamente uma flor ressequida, com o mesmo ou quase o mesmo amor que colocamos no ato de pegar o nosso bebê e o levarmos para a mãe amamentar, o mundo terá encontrado o seu caminho verdadeiro.

No dia em que prepararmos um prato de comida bem caprichado e o levarmos até o mendigo largado na calçada, dizendo a ele: “Olha, eu sei que nossa comida não vai resolver o seu problema, mas gostaria muito que você a aceitasse, porque ela está gostosa demais e foi feita com muito carinho. Experimenta!” E se, enquanto ele comer, ficarmos ali, conversando tranquilamente, fazendo desse momento algo especial, humano, inesquecível para ele (e para nós), então o mundo terá começado o seu caminho verdadeiramente humano, que inclui o amor público.


Mas, fala sério, a gente não aguenta nem reunião de condomínio!                         



sexta-feira, 29 de junho de 2012

Cem poemas bonitos do Brasil


17- A máquina do mundo 

                                Carlos Drummond de Andrade


E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco 
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas 
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado, 
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia. 
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar 
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos. 
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera 
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos, 
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas, 
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha, 
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de 
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo, 
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética, 
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo 
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.” 
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge 
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos 
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber 
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo, 
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade: 
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa, 
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana. 
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio, 
a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra; 
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face 
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos, 
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes 
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo, 
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho. 
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida, 
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

domingo, 27 de maio de 2012

Duas escolas!

                                                                   
                                                                       Humberto  Cosentine



Todos os sistemas tendem a se ramificar.  Lojas, por exemplo.  Antigamente, havia somente as que vendiam de tudo.  Aos poucos foram surgindo outras mais e mais especializadas.  Com as profissões ocorre o mesmo.  Antes havia o médico, hoje em dia chegamos a um universo enorme de especialistas.

Enfim, praticamente todos os sistemas tendem à ramificação.  A imagem disso pode ser a de uma árvore, que vai do tronco para os galhos e folhas periféricos.  Talvez essa proposição possa ser suportada pela teoria dos sistemas complexos ou pela dos fractais, porém não estou preparado para estabelecer esse nexo.  Fiquemos, portanto, apenas com as evidências.

Mas o que isso tem a ver com a escola? Vejamos:

Ocorre que dois sistemas humanos fundamentais, a família e a escola, começaram a ramificar mais ou menos na mesma época - a segunda metade do séc. XX.  A família, que foi por muito tempo o melhor arranjo para melhorar a vida e a sobrevivência dos seres humanos, pois proporcionava mais segurança física, melhor alimentação, sexo para o casal, crescimento mais seguro para as crianças, afetividade, etc., entrou em processo de ramificação quando a alimentação fora de casa se tornou mais viável, a mulher começou a buscar sua realização profissional, a proteção física ao indivíduo realizada pelo Estado passou a ser mais eficaz e acessível a todos; ou seja, a família entra em ramificação a partir do ponto em que a sociedade aparece com força nas suas funções típicas. Enquanto isso, a escola, também em processo de ramificação, se desenvolve oferecendo opções como as escolas técnicas, ou as que propõem o aperfeiçoamento de determinadas habilidades, tais como escolas de idiomas, de oratória, de esportes e outras.

Só que as coisas vão ficando complicadas para a escola básica com a simultânea eclosão da ramificação da família.  É que a saída da mulher para trabalhar, além da prevalência da família nuclear sobre a extensa, leva a que a formação inicial das crianças passe a precisar de ajuda externa.  Ora, o sistema naturalmente eleito para isso acaba sendo a escola, pois para ali as crianças afluem crescentemente todos os dias, e os professores (as) são percebidos como as melhores pessoas para realizar esse auxílio.

Por essa coincidência, a sala de aula passa a ser o lugar onde cada vez mais duas coisas complexas acontecem simultaneamente, a saber, a formação inicial da pessoa e o aprendizado de conhecimentos mais específicos e aprofundados.  Vale dizer, deu-se início a uma grande confusão que hoje em dia aparece em formas (e sons!) absolutamente nítidas.  Sim, porque realizar essas duas funções, ao mesmo tempo, ainda mais em salas com 30/40 alunos é simplesmente impossível.  Parafraseando a física, duas atividades muito distintas não podem ocupar o mesmo espaço físico simultaneamente.

O que os melhores professores e as melhores escolas acabam fazendo é “puxar” as práticas escolares mais para a função de formação inicial (Col. Augusto Laranja, Ceu Aricanduva), ou mais para o aprendizado de matérias específicas (Col. Bandeirantes, EMEF Bartolomeu Lourenço de Gusmão).  Mas, trabalhar as duas igualmente, ninguém consegue, e é por isso que nas escolas onde essa impossibilidade mostra-se necessária pelo fato de a maioria de seus alunos ser proveniente de famílias pouco estruturadas, e haver pressão institucional para o aprendizado das “matérias”, caminha-se para uma situação infernal.

Então, o que fazer?  Devolver as mulheres à sua antiga e exclusiva função de criar os filhos, retirando delas o direito à autonomia e realização pessoal?  Claro que não  -  até porque elas não aceitariam, isso sem considerar o fato de que muitas e muitos de nós não sabem bem promover essa formação inicial da pessoa.

Portanto, o único caminho possível (até bem óbvio) é: dividir a escola em duas, uma para a formação básica da pessoa, e outra para o aprendizado de conhecimentos específicos e aprofundados.  Separar, até fisicamente, é necessário porque a maneira de funcionar de cada uma das partes exige instalações totalmente distintas das da outra.

Em linhas gerais, a escola de formação da pessoa ofereceria atividades mais vivenciais e para poucos alunos de cada vez,  voltadas para a aquisição de conhecimentos, habilidades e competências úteis ou significativas para a vida cotidiana.  A segunda escola disponibilizaria cursos em módulos graduais de conhecimentos específicos e aprofundados, que contemplariam interesses de todo tipo de inteligência, ministrados em espaços bem parecidos com os que conhecemos, nos quais os alunos se matriculariam segundo seu interesse.  Provavelmente, o diploma viria da primeira escola, enquanto que os cursos feitos na 2ª funcionariam como enriquecimento do mesmo.

Enfim, consegue-se com esse arranjo otimizar a realização das duas funções referidas, quais sejam, a formação da pessoa e a aquisição de conhecimentos específicos, que, até então, vêm sendo exercidas com resultados indiscutivelmente insuficientes - e em meio a altíssimo stress de professores e alunos -  dentro do atual sistema enlouquecedor e alienante de operação simultânea de ambas. 

Há algum prefeito lendo?
   

sábado, 10 de março de 2012

Cem poemas bonitos do Brasil



16 - Traduzir-se

                                    Ferreira Gullar


Uma parte de mim é todo mundo
Outra parte é ninguém
Fundo sem fundo
Uma parte de mim é multidão
Outra parte estranheza e solidão
Uma parte de mim, pesa
Pondera
Outra parte, delira
Uma parte de mim almoça e janta
Outra parte se espanta
Uma parte de mim é permanente
Outra parte se sabe de repente
Uma parte de mim é só vertigem
Outra parte, linguagem
Traduzir uma parte noutra parte
Que é uma questão de vida ou morte
Será arte?

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Cem poemas bonitos do Brasil




15- Chovendo na roseira 

                                        Antonio Carlos Jobim



Olha! Está chovendo na roseira
Que só dá rosa mas não cheira
A frescura das gotas úmidas
Que é de Luiza, que é de Paulinho, que é de João
Que é de ninguém

Pétalas de rosas espalhadas pelo vento
Um amor tão puro carregou meu pensamento
Olha! Um tico-tico mora ao lado
E, passeando no molhado
Adivinhou a primavera

Olha! Que chuva boa, prazenteira
Que vem molhar minha roseira
Chuva boa, criadeira
Que molha a terra, que enche o rio, que limpa o céu
Que traz o azul

Olha! O jasmineiro está florido
E o riachinho de água esperta se lança em vasto rio de águas calmas


Ah! Você é de ninguém... 


Cem poemas bonitos do Brasil





14- Carolina
                               
                                       Machado de Assis 



Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.

Trago-te flores - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.







terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Cem poemas bonitos do Brasil





13- O rio
                
                               Manuel Bandeira


Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refleti-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.






sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Cem poemas bonitos do Brasil





12- Ensinamento

                                          

                                             Adélia Prado



Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Uai ou why?


Não tenho pesquisas científicas para  apoiar essa tese , pelo menos,  se elas existem, eu desconheço*, mas tenho uma forte suspeita de que a expressão mineira “uai” deriva da palavra inglesa why.  Em primeiro lugar, porque as duas palavras são sonoramente idênticas e, em segundo lugar, porque o uai costuma ser usado no início das frases e quase sempre introduz uma certificação ou explicação para determinado assunto.

Mas como teria surgido essa derivação?  Ora, todos nós sabemos muito bem que engenheiros ingleses vieram ao Brasil construir estradas de ferro  para escoar a produção de minérios em Minas Gerais, ou administrar empresas de mineração lá.  Engenheiros são pessoas cartesianas, que buscam metodicamente explicações para orientar seus passos lógicos no trabalho.  Não é difícil que os nossos nativos, vamos chamá-los assim, no afã de imitar aqueles ingleses “superiores”, tenham tido sua atenção voltada para aquela palavrinha que com muita freqüência aparecia no começo das frases desses estrangeiros  acostumados a questionar muito: why.  Daí para imitar o som desse intróito, como uma maneira de se identificar com aqueles homens importantes,  não custou muito.  E então surgiu o nosso gostoso “uai”. 

Uai é why, uai!  Será?

*  A bem da verdade, parece que um professor mineiro  (não consegui seu nome) forneceu subsídios para  essa explicação no V Congresso de Ciências Humanas, Letras e Artes, realizado na Universidade Federal de Ouro Preto, em Agosto de 2001.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Cem poemas bonitos do Brasil



11- Casamento
                                                                                   Adélia Prado
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.