terça-feira, 10 de julho de 2012

Amor público



                                                                       

Para termos um mundo verdadeiramente humano, precisamos desenvolver o que chamo de amor público.No dia em que nós pegarmos um regadorzinho e formos até a praça pública mais próxima a fim de nutrir carinhosamente uma flor ressequida, com o mesmo ou quase o mesmo amor que colocamos no ato de pegar o nosso bebê e o levarmos para a mãe amamentar, o mundo terá encontrado o seu caminho verdadeiro.

No dia em que prepararmos um prato de comida bem caprichado e o levarmos até o mendigo largado na calçada, dizendo a ele: “Olha, eu sei que nossa comida não vai resolver o seu problema, mas gostaria muito que você a aceitasse, porque ela está gostosa demais e foi feita com muito carinho. Experimenta!” E se, enquanto ele comer, ficarmos ali, conversando tranquilamente, fazendo desse momento algo especial, humano, inesquecível para ele (e para nós), então o mundo terá começado o seu caminho verdadeiramente humano, que inclui o amor público.


Mas, fala sério, a gente não aguenta nem reunião de condomínio!                         



sexta-feira, 29 de junho de 2012

Cem poemas bonitos do Brasil


17- A máquina do mundo 

                                Carlos Drummond de Andrade


E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco 
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas 
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado, 
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia. 
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar 
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos. 
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera 
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos, 
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas, 
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha, 
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de 
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo, 
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética, 
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo 
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.” 
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge 
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos 
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber 
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo, 
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade: 
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa, 
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana. 
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio, 
a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra; 
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face 
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos, 
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes 
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo, 
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho. 
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida, 
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

domingo, 27 de maio de 2012

Duas escolas!

                                                                   
                                                                       Humberto  Cosentine



Todos os sistemas tendem a se ramificar.  Lojas, por exemplo.  Antigamente, havia somente as que vendiam de tudo.  Aos poucos foram surgindo outras mais e mais especializadas.  Com as profissões ocorre o mesmo.  Antes havia o médico, hoje em dia chegamos a um universo enorme de especialistas.

Enfim, praticamente todos os sistemas tendem à ramificação.  A imagem disso pode ser a de uma árvore, que vai do tronco para os galhos e folhas periféricos.  Talvez essa proposição possa ser suportada pela teoria dos sistemas complexos ou pela dos fractais, porém não estou preparado para estabelecer esse nexo.  Fiquemos, portanto, apenas com as evidências.

Mas o que isso tem a ver com a escola? Vejamos:

Ocorre que dois sistemas humanos fundamentais, a família e a escola, começaram a ramificar mais ou menos na mesma época - a segunda metade do séc. XX.  A família, que foi por muito tempo o melhor arranjo para melhorar a vida e a sobrevivência dos seres humanos, pois proporcionava mais segurança física, melhor alimentação, sexo para o casal, crescimento mais seguro para as crianças, afetividade, etc., entrou em processo de ramificação quando a alimentação fora de casa se tornou mais viável, a mulher começou a buscar sua realização profissional, a proteção física ao indivíduo realizada pelo Estado passou a ser mais eficaz e acessível a todos; ou seja, a família entra em ramificação a partir do ponto em que a sociedade aparece com força nas suas funções típicas. Enquanto isso, a escola, também em processo de ramificação, se desenvolve oferecendo opções como as escolas técnicas, ou as que propõem o aperfeiçoamento de determinadas habilidades, tais como escolas de idiomas, de oratória, de esportes e outras.

Só que as coisas vão ficando complicadas para a escola básica com a simultânea eclosão da ramificação da família.  É que a saída da mulher para trabalhar, além da prevalência da família nuclear sobre a extensa, leva a que a formação inicial das crianças passe a precisar de ajuda externa.  Ora, o sistema naturalmente eleito para isso acaba sendo a escola, pois para ali as crianças afluem crescentemente todos os dias, e os professores (as) são percebidos como as melhores pessoas para realizar esse auxílio.

Por essa coincidência, a sala de aula passa a ser o lugar onde cada vez mais duas coisas complexas acontecem simultaneamente, a saber, a formação inicial da pessoa e o aprendizado de conhecimentos mais específicos e aprofundados.  Vale dizer, deu-se início a uma grande confusão que hoje em dia aparece em formas (e sons!) absolutamente nítidas.  Sim, porque realizar essas duas funções, ao mesmo tempo, ainda mais em salas com 30/40 alunos é simplesmente impossível.  Parafraseando a física, duas atividades muito distintas não podem ocupar o mesmo espaço físico simultaneamente.

O que os melhores professores e as melhores escolas acabam fazendo é “puxar” as práticas escolares mais para a função de formação inicial (Col. Augusto Laranja, Ceu Aricanduva), ou mais para o aprendizado de matérias específicas (Col. Bandeirantes, EMEF Bartolomeu Lourenço de Gusmão).  Mas, trabalhar as duas igualmente, ninguém consegue, e é por isso que nas escolas onde essa impossibilidade mostra-se necessária pelo fato de a maioria de seus alunos ser proveniente de famílias pouco estruturadas, e haver pressão institucional para o aprendizado das “matérias”, caminha-se para uma situação infernal.

Então, o que fazer?  Devolver as mulheres à sua antiga e exclusiva função de criar os filhos, retirando delas o direito à autonomia e realização pessoal?  Claro que não  -  até porque elas não aceitariam, isso sem considerar o fato de que muitas e muitos de nós não sabem bem promover essa formação inicial da pessoa.

Portanto, o único caminho possível (até bem óbvio) é: dividir a escola em duas, uma para a formação básica da pessoa, e outra para o aprendizado de conhecimentos específicos e aprofundados.  Separar, até fisicamente, é necessário porque a maneira de funcionar de cada uma das partes exige instalações totalmente distintas das da outra.

Em linhas gerais, a escola de formação da pessoa ofereceria atividades mais vivenciais e para poucos alunos de cada vez,  voltadas para a aquisição de conhecimentos, habilidades e competências úteis ou significativas para a vida cotidiana.  A segunda escola disponibilizaria cursos em módulos graduais de conhecimentos específicos e aprofundados, que contemplariam interesses de todo tipo de inteligência, ministrados em espaços bem parecidos com os que conhecemos, nos quais os alunos se matriculariam segundo seu interesse.  Provavelmente, o diploma viria da primeira escola, enquanto que os cursos feitos na 2ª funcionariam como enriquecimento do mesmo.

Enfim, consegue-se com esse arranjo otimizar a realização das duas funções referidas, quais sejam, a formação da pessoa e a aquisição de conhecimentos específicos, que, até então, vêm sendo exercidas com resultados indiscutivelmente insuficientes - e em meio a altíssimo stress de professores e alunos -  dentro do atual sistema enlouquecedor e alienante de operação simultânea de ambas. 

Há algum prefeito lendo?
   

sábado, 10 de março de 2012

Cem poemas bonitos do Brasil



16 - Traduzir-se

                                    Ferreira Gullar


Uma parte de mim é todo mundo
Outra parte é ninguém
Fundo sem fundo
Uma parte de mim é multidão
Outra parte estranheza e solidão
Uma parte de mim, pesa
Pondera
Outra parte, delira
Uma parte de mim almoça e janta
Outra parte se espanta
Uma parte de mim é permanente
Outra parte se sabe de repente
Uma parte de mim é só vertigem
Outra parte, linguagem
Traduzir uma parte noutra parte
Que é uma questão de vida ou morte
Será arte?

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Cem poemas bonitos do Brasil




15- Chovendo na roseira 

                                        Antonio Carlos Jobim



Olha! Está chovendo na roseira
Que só dá rosa mas não cheira
A frescura das gotas úmidas
Que é de Luiza, que é de Paulinho, que é de João
Que é de ninguém

Pétalas de rosas espalhadas pelo vento
Um amor tão puro carregou meu pensamento
Olha! Um tico-tico mora ao lado
E, passeando no molhado
Adivinhou a primavera

Olha! Que chuva boa, prazenteira
Que vem molhar minha roseira
Chuva boa, criadeira
Que molha a terra, que enche o rio, que limpa o céu
Que traz o azul

Olha! O jasmineiro está florido
E o riachinho de água esperta se lança em vasto rio de águas calmas


Ah! Você é de ninguém... 


Cem poemas bonitos do Brasil





14- Carolina
                               
                                       Machado de Assis 



Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.

Trago-te flores - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.







terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Cem poemas bonitos do Brasil





13- O rio
                
                               Manuel Bandeira


Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refleti-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.






sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Cem poemas bonitos do Brasil





12- Ensinamento

                                          

                                             Adélia Prado



Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Uai ou why?


Não tenho pesquisas científicas para  apoiar essa tese , pelo menos,  se elas existem, eu desconheço*, mas tenho uma forte suspeita de que a expressão mineira “uai” deriva da palavra inglesa why.  Em primeiro lugar, porque as duas palavras são sonoramente idênticas e, em segundo lugar, porque o uai costuma ser usado no início das frases e quase sempre introduz uma certificação ou explicação para determinado assunto.

Mas como teria surgido essa derivação?  Ora, todos nós sabemos muito bem que engenheiros ingleses vieram ao Brasil construir estradas de ferro  para escoar a produção de minérios em Minas Gerais, ou administrar empresas de mineração lá.  Engenheiros são pessoas cartesianas, que buscam metodicamente explicações para orientar seus passos lógicos no trabalho.  Não é difícil que os nossos nativos, vamos chamá-los assim, no afã de imitar aqueles ingleses “superiores”, tenham tido sua atenção voltada para aquela palavrinha que com muita freqüência aparecia no começo das frases desses estrangeiros  acostumados a questionar muito: why.  Daí para imitar o som desse intróito, como uma maneira de se identificar com aqueles homens importantes,  não custou muito.  E então surgiu o nosso gostoso “uai”. 

Uai é why, uai!  Será?

*  A bem da verdade, parece que um professor mineiro  (não consegui seu nome) forneceu subsídios para  essa explicação no V Congresso de Ciências Humanas, Letras e Artes, realizado na Universidade Federal de Ouro Preto, em Agosto de 2001.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Cem poemas bonitos do Brasil



11- Casamento
                                                                                   Adélia Prado
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

domingo, 30 de outubro de 2011

A leitura de poemas melhora sua expressão verbal




Ler poemas é o melhor que você pode fazer para aperfeiçoar sua expressão escrita ou falada.  Mas ler da maneira mais livre possível.  Nada de se obrigar a terminar a leitura de um poema que é muito difícil ou “chato”.  Não, leia apenas o que quiser,  o que lhe parecer interessante ou bonito:  o começo do poema, o final, apenas um verso, o título ou  uma expressão lá no meio que lhe chame a atenção por qualquer motivo.  Não leve muito em conta  indicações do tipo “este poema é obrigatório” ou, “é o melhor exemplo da escola literária x”.  Sem essa! O objetivo não será estudar poesia.  Guie-se apenas pelo que lhe despertar beleza ou lhe parecer muito significativo (no sentido simples de ter muito significado). E, para tanto, “navegue” à solta por todos os poemas que encontrar,  famosos ou não. Se um poema lhe surgir como repleto de destaques interessantes, aí sim você poderá lê-lo por inteiro.  Mas, no mais das vezes, faça a busca livre que proponho.

Por que fazer isso melhora a capacidade de escrever ou falar? 

Porque os poetas são exímios criadores de expressões verbais com alta densidade informacional (expressam muito com pouco), simplicidade e beleza. Três importantes qualidades da boa expressão verbal.  Pois bem,  ao selecionar pedacinhos dos poemas, é quase certo que você  estará tendo contato com bons exemplos da escrita que traz as características apontadas acima e, muito importante, que são do seu agrado, por isso esses seus achados  tenderão a, por afinidade e qualidade,  fazer parte da “caixinha de ferramentas” de sua própria expressão verbal e aumentar eficazmente sua capacidade de escrever e falar bem.  Bem: necessário, simples e bonito.  



sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Cem poemas bonitos do Brasil



10- A valsa

                                        Casimiro de Abreu

Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Valsavas:
— Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos, 
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
P'ra outro
Não eu!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...

Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!

Quem dera
Que sintas
As dores
De arnores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas,..
— Eu vi!...

Calado,
Sozinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!

Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!

Quem dera
Que sintas!...
— Não negues
Não mintas...
— Eu vi!

Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
Eu vi!

domingo, 23 de outubro de 2011

Cem poemas bonitos do Brasil






        9-  Homem-Woman                              Décio Pignatari  


         

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Cem poemas bonitos do Brasil







8- Profundamente
                                                                                        Manuel Bandeira

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes

Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.